segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

 

Recordações de sete de setembro


Apesar do avançado da idade, ainda sinto o espírito de infante menino, onde vez por outra tenho a alma e o corpo revigorados com encontros fortuitos ou apenas uma breve prosa em aplicativos de mensagens com velhos amigos, com quem partilhamos alguns momentos de nossa juventude ou apenas temos gostos e opiniões em comum ou mesmo são colegas de profissão. Nesses dias, por acaso, encontrei meu amigo Policarpo, onde tecemos dois ou mais dedos de prosa e o teor da conversa não me lembro e não tem importância. Foram palavras amigas, brincadeiras sadias que sempre vem à tona quando desses encontros casuais. Nos despedimos e sigo meu caminho. Um pouco mais adiante, passa por mim um jovem policial filho de um amigo que falou ter ganho o dia ao encontrar na mesma rua duas lendas da gloriosa, referindo-se ao meu amigo Policarpo e a minha pessoa. Senti uma leve satisfação e orgulho, mas também para mim ficou evidenciado que o tempo, cruel senhor de nossos destinos, já deixou suas marcas em meu caminho e daqui há pouco vou virar saudades e lembranças na memória dos entes queridos.


Em outra ocasião, conversando por mensagens no celular com meu nobre amigo Pedro Paulo Paulino,  veio à tona o Sete de Setembro, data magna de nossa nação, onde este este relatara em uma cronica como foi traumática sua experiência com a data por inúmeros motivos, dentre os quais o fato de ir no final e as pessoas por pilhéria e chacota chamarem de rabada, além do escaldante clima saariano de nossa região. Relatei que minha experiência foi mais além, pois por obrigações profissionais, desfilei inúmeras vezes pela Polícia Militar, sendo a primeira pelo Batalhão de Choque da PM no longínquo ano de 1992, quase um menino com 21 anos de idade. Passando um mês ensaiado de segunda a sexta sob os rigores militares, onde à época o batalhão era comandado pelo caricato tenente-coronel Amaral Neto. Na véspera, todo o efetivo ficava aquartelado e por volta de cinco da manhã, a alvorada e um café da manhã reforçado para evitar que alguém viesse a passar mal e dar vexame. A tropa era então deslocada e fica concentrada nas imediações da avenida Dioguinho, onde ocorreria o desfile, e em torno de meio dia estávamos de volta ao quartel para que fôssemos liberados. Como meu amigo Pedro Paulo se sentiria com esta situação, eu nem imagino. Depois, em Canindé, os desfiles pela polícia foram mais tranquilos e não exigiam tanto rigor por parte dos comandantes. O certo é que tanto alunos como policiais tem opiniões parecidas quanto aos desfiles, alguns gostam e outros vão por pura imposição.


Antes de ingressar na corporação, nos tempos de minha saudosa CNEC, também participei de alguns desfiles no sete de setembro. Recordo que em alguns anos não houve desfiles, onde os colégios do município realizavam gincanas culturais. Contudo participei em dois anos seguidos na bateria marcial e em anos seguintes como parte do corpo de atletas do colégio. Meu instrumento era o bumbo e ficava no final da bateria. A diversão corria solta por conta de brincadeiras inúmeras de personagens fantásticos e amigos queridos, como o Kiko Vidal, que ainda hoje está à frente da bateria de um colégio e o Chaguinha, que atualmente tem uma pizzaria na Praça DR. Aramis. No grande dia, após o desfile, havia um atrativo para os participantes: uma viagem para o município de Paramoti na parte da tarde, pois os colégios de lá não dispunham de bateria própria. Chegávamos por volta de duas horas da tarde e em torno de quatro horas iniciava o desfile pelas principais ruas da outrora Cidade da Paz. Ao término era servido um sanduíche e um refrigerante aos participantes, misto quente e guaraná. Depois regressávamos ao lar.


Dentre as participações nos desfiles dos colégios, os alunos que vão na afamada rabada, geralmente são participações forçadas, tendo como atrativo um reforço na pontuação ou coisa do gênero. Já na polícia, tempos atrás era obrigatório, sendo que nos últimos anos por conta de conquistas trabalhistas, existem critérios de participação e os que participam de folga são recompensados de alguma forma. E voltando aos tempos de desfile em Paramoti, lembro de uma ocasião durante a distribuição do lanche em que havia uma algazarra geral dos alunos e chegou um policial para acalmar os ânimos. Veio em tom áspero e enérgico, sendo rapidamente atendido por todos ante o respeito e temor que a sua figura agigantada deixava transparecer. Seu nome era pronunciado no aumentativo, MANELZÃO, quase o homônimo do mítico MANOELÃO, personagem de Guimarães Rosa. O mesmo possuía um físico avantajado, alto e um pouco obeso. Eu tinha por volta de quinze anos e tempos depois ouvi falar a seu respeito dentro da instituição. Não cheguei a trabalhar com o mesmo, tendo visto ele apenas uma vez ou outra depois deste episódio, pois quando ingressei já estava aposentado, contudo contam que o mesmo possuía um tique nervoso na cabeça e que de vez em quando era comum vê-lo agitar a cabeça para os lados como se estivesse negando alguma coisa. Contam dele que em certa ocasião, estando o mesmo na localidade de Santa Fé aguardando o transporte para Paramoti, viu aproximar-se o ônibus da Empresa Canindé. Estava fardado como era comum aos policiais antigamente pegar carona e fez sinal para o coletivo parar. Ainda sobre as brumas das lendas, disseram-me que antes do veículo parar, veio o tal tique nervoso e o motorista entendeu que não deveria parar e seguiu sua viagem, deixando nosso bravo herói quarando ao sol aguardando outra carona.


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