segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

 

Histórias de pescador


Nos últimos dias de setembro deste 2023, mais uma vez sou enlutado com a triste notícia da partida de um amigo querido, vitimado ao que tudo indica, por um ataque cardíaco. Meses antes, vejo partir para os braços do Criador amigos e conhecidos de longa data, iniciando com meu amigo e antigo vizinho da Rua Mozart Pinto, Zé Raquel. Depois veio minha querida mãe Dona Arleide, a qual andava com a mente nublada pelo Alzheimer e depois mais algumas pessoas queridas as quais deixo meus sinceros respeito e saudades sem ter que citá-las. De minha mãe lembro de sua grande bondade e a vontade de sempre alimentar a quem ia visitá-la, oferecendo seus quitutes que ocasionalmente fazia, e assim como meu pai, guardarei eternas saudades. De meu velho amigo Zé Raquel, guardei as boas lembranças de conversas hilárias ocorridas em sua calçada no Centro da Meca Franciscana, onde no teor destas, sempre pairavam dúvidas sobre sua veracidade e eu costumava chamar os frequentadores ocasionais que lá aportavam de pescadores, dado o tom surreal e imaginário de algumas histórias.


Na referida calçada, neste período festivo, e também aos finais de semana durante a alta estação, era comum que por lá eu surgisse quando estava trabalhando ou apenas porque meus passeios ciclísticos invariavelmente me conduziam para o Centro de Canindé. Era um homem de fisiologia frágil, com uma válvula cardíaca artificial instalada há muitos anos em seu peito. Contudo, em uma de suas aventuras, relatou que em sua juventude e ainda com a saúde em dia, contava com um pequeno comércio de estivas e cereais, instalado dentro do mercado público, onde um dia outro comerciante lhe pedira duas sacas de açúcar que pesam em torno de sessenta quilos cada uma para sua sorveteria, e na falta de carreteiros como os lendários Tarzan e Zé Gordura, Zé Raquel orgulhosamente me confessa que coloca uma saca debaixo de cada braço e o mesmo faz a entrega da pesada mercadoria com um mínimo esforço. De tanto repetir sua façanha em tom de brincadeira, hoje fica difícil afirmar se realmente era uma verdade ou apenas bravatas de pescador.

Apesar de ter sofrido pela perda de amigos e parentes neste ano mais do que me recordo em outros períodos de minha vida, tive já perdas terríveis, como de meu querido enteado Jardel, falecido precocemente nas piscinas de um hotel quando se fazia acompanhar de sua madrinha, uma dor que só um pai que perde um filho pode descrever. Mas entendo que são os desígnios de Deus, aceitando e sabendo que a vida é apenas um sopro, uma grande dádiva que recebemos e que a Irmã Morte, como falava nosso padroeiro São Francisco, só existe por que ela é consequência direta da vida. Também credito as últimas perdas que tive este ano, a inexorável passagem do tempo, pois quanto mais você vive, mais perto fica do destino inevitável, da mesma forma que seus conhecidos. Desta forma, ao amadurecer nosso corpo e o peso dos anos começar a cobrar seu preço, invariavelmente vamos moldando nossa mente para o descanso eterno.


Bençãos e renovação de fé sempre chegam em setembro. Os festejos de São Francisco nos trazem memórias alegres no período em que a cidade é metamorfoseada pela peregrinação de fiéis e vendedores que aportam em nossa urbe. Saí em alguns dias com minha família, que desde que me mudei da Mozart Pinto, ganhou mais alguns membros. Além de dois genros, vieram as pequenas netas, que tanta energia demonstram e alegria nos trazem. Em um dos dias fui devidamente caracterizado com uma camisa marrom, cadeira debaixo do braço para evitar as arquibancadas da praça aquecidas pelo saariano sol deste período além de uma garrafa de água para aplacar a sede. E ao voltar, venho pela igreja Das Dores, onde a ausência mais sentida pela memória e o coração é o parque de diversões e um pouco mais adiante vejo fechado e com sinais de reforma, o comércio do meu amigo Zé Raquel. Comento o fato com minha esposa e assim vou me conformando com a vida, que é apenas uma passagem, uma preparação para a morte, nossa única certeza. Com um show pirotécnico, nos despedimos da festa com seu sons, cores, o perfume dos ananás, a predominância do marrom, os sinos da igreja e as multidões que chegam nestes dez dias, onde ansiosos aguardamos o próximo ano com mais vivas a São Francisco.

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